A Ciência das Amizades Femininas
As mulheres possuem uma estratégia mais colaborativa para lidar com desafios e estresses cotidianos, benefiando o bem-estar emocional e a saúde física a longo prazo.
Em “A gente mira no amor e acerta na solidão”, a doutora em psicologia e psicanálise Ana Suy destaca que a amizade pode ser, na verdade, a forma mais digna do amor. Ela descreve a amizade como "o amor que deu certo", uma modalidade de amor que, embora frequentemente fique em segundo plano nas discussões sobre o tema, tem um impacto significativo na longevidade e na qualidade de vida das mulheres.
Essa ideia é reforçada por um estudo conduzido por Kotrina Kajokaite, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, sobre o comportamento dos primatas. O estudo, que acompanhou por 18 anos a espécie Cebus imitator, revelou que as fêmeas que mantinham um círculo próximo de amigas tinham uma expectativa de vida significativamente maior. Durante o estudo, foram analisadas diversas interações entre elas, como o cuidado mútuo, a busca por comida juntas e a participação em conflitos de coalizão, nas quais as fêmeas se ajudavam em situações de luta. Elas se empilhavam umas sobre as outras, ameaçavam o oponente ou se abraçavam para se proteger. Kajokaite explica que, nesse tipo de interação, as fêmeas se uniam para enfrentar desafios, tanto emocionais quanto físicos.
É nesse contexto de cuidado que encontramos a visão da filósofa bell hooks, em seu livro Tudo sobre o amor, que nos lembra que a verdadeira essência do amor está na "vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa". Nas amizades femininas, esse empenho se traduz no cuidado mútuo, no qual cada amiga investe no bem-estar físico, emocional e no desenvolvimento da outra.
Para a ciência, não há dúvidas de que a amizade e o apoio social são fundamentais para nossa saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a solidão pode aumentar o risco de morte em 25%, o risco de demência em 50% e o de doenças cardiovasculares em 30%. Esses dados são importantes para entendermos o impacto das conexões sociais na longevidade e qualidade de vida de todas as pessoas.
Mulheres, Estresse e Amizade: Uma Forma de Superar Desafios
Pesquisas da UCLA revelam algo surpreendente: mulheres respondem ao estresse de maneira única. Quando estão com outras mulheres, uma cascata de substâncias químicas no cérebro é liberada, especialmente a oxitocina, o "hormônio do carinho". Esse aumento de oxitocina combate o estresse, promove o relaxamento e fortalece os laços emocionais. Essa resposta não ocorre da mesma forma em homens, uma vez que a testosterona, produzida em maior quantidade sob estresse, reduz os efeitos da oxitocina.
A UCLA sugere que, quando expostas ao estresse, as mulheres reagem com a liberação de substâncias químicas cerebrais que as motivam a formar e fortalecer laços de amizade com outras mulheres. Esse achado desafiou décadas de pesquisa que enfocavam as respostas masculinas ao estresse. Tradicionalmente, acreditava-se que o corpo humano ativava uma resposta hormonal de luta ou fuga, um mecanismo de sobrevivência originado dos tempos em que nossos ancestrais enfrentavam predadores. No entanto, o mesmo estudo sugere que as mulheres possuem um repertório comportamental mais amplo e complexo, buscando apoio social como uma forma de resposta ao estresse.
Esse "repertório complexo" mostra que as mulheres possuem uma estratégia mais colaborativa para lidar com desafios e estresses cotidianos, o que, na visão do estudo, oferece benefícios não só para o bem-estar emocional, mas também para a saúde física a longo prazo.
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