Por que reclamamos tanto?
O problema se agrava quando as reclamações se estendem a inúmeros contextos da vida.
Imagine que duas pessoas estão caminhando e se encontram inesperadamente na rua. Elas podem ser conhecidas, colegas, amigas ou familiares. Um deles cumprimenta o outro, dizendo "oi, como vai?" ou "tudo bem com você?". E então, o outro responde "vamos indo" ou "caminhando, dentro do possível". E cada um segue o seu caminho. A sensação de negatividade e o tom de queixa parecem algo típico de um encontro como esse.
Reclamar sobre o trânsito, o clima, o trabalho ou as dificuldades financeiras é frequentemente utilizado como algo inofensivo e até terapêutico, já que serve de alívio emocional. Não há nada de errado com isso; reclamar aparece como uma estratégia de regulação e adaptação no ser humano. O problema se agrava de verdade quando as reclamações se estendem a inúmeros contextos da vida da pessoa. O lamento crônico traz impactos significativos para a saúde geral de quem reclama e de quem ouve as queixas. O desgaste emocional e fisiológico ocorre quando um estado de espírito negativo toma conta de nossa rotina diária.
A reclamação e suas consequências.
Queixar-se é um mecanismo de enfrentamento, liberando tensões acumuladas e nos lançando à procura de aprovação social. Porém, assim como ocorre quando falamos abertamente sobre nossos objetivos, o ato de compartilhar excessivamente nossas insatisfações pode reduzir nossa motivação, diluindo o impacto das nossas próprias intenções ou causando uma sensação de frustração diante dos desafios e gerando um ciclo de reclamações, como discutido em outro texto do Viver Bem, “Falar sobre os seus objetivos pode fazer sua motivação desaparecer”.
É possível observar que reclamamos para buscar a aceitação da nossa opinião ou percepção, como se fosse um looping. O problema se agrava de verdade quando nos fixamos nele, tornando a proliferação de reclamações presente em quase todos os contextos da vida. A situação se intensifica com o uso excessivo das redes sociais. Indivíduos mais jovens ou influentes frequentemente recorrem a conteúdos de críticas, denúncias, opiniões negativas e ataques para atrair seguidores e aumentar o engajamento.
Por que algumas pessoas se queixam mais do que outras?
O viés negativo é uma tendência psicológica natural em nós. O psicólogo social Roy Baumeister, autor de The Power of Bad, afirma que "aqueles com viés negativo tinham mais chances de sobreviver" devido à necessidade de manter um estado constante de alerta frente a ameaças e perigos. Isso resultava em uma percepção mais aguçada de riscos e aumentava as chances de evitar situações perigosas e sobreviver em ambientes hostis. Essa tendência herdada ajuda a entender porque é fácil focar no negativo e porque algumas pessoas se queixam mais, dependendo do contexto de vida e da percepção interna sobre suas capacidades e necessidades.
O viés moderno é contraproducente pois pode levar a uma visão distorcida da realidade, fazendo com que as pessoas supervalorizem aspectos negativos da vida e subestimem os positivos. Reclamar constantemente pode mudar a estrutura do cérebro, dificultando a resolução de problemas e afetando as funções cognitivas. As consequências disso incluem a redução de funções como a resolução de problemas, a tomada de decisões e o planejamento, o que gera mais frustração e, consequentemente, mais queixas, criando um ciclo.
Além disso, a reclamação diária está ligada à ansiedade e depressão, trazendo pensamentos intrusivos, ruminações, baixa autoestima, cansaço e fadiga mental. Pessoas que se lamentam o tempo todo tendem a ser mais pessimistas e menos resilientes. Antes de se queixar outra vez, considere os efeitos cerebrais, emocionais e sociais da sua atitude.
Dicas da psicologia para enfrentamento do lamento crônico:
1. Seja transparente e verdadeiro consigo mesmo e com os outros: Foque em fazer sua parte. Quando realizamos tarefas para os outros que não queremos, criamos expectativas de recompensa ou uma expectativa de dívida com o outro. Isso pode nos levar a responsabilizar os outros pela nossa infelicidade, gerando mais reclamações.
2. Concentre-se no que é suficientemente satisfatório no presente: Focar a atenção no momento presente, olhando para o que já temos, pode inclusive favorecer a gratidão.
3. Busque soluções: Quando estabelecemos uma meta e a quebramos em pequenas etapas, completar cada uma delas nos proporciona uma sensação agradável de dever cumprido, o que aumenta as chances de satisfação e reduz a ruminação.
4. Esteja atento às suas palavras: A psiconeurolinguística ensina que, ao tomar consciência da nossa linguagem, podemos transformá-la. O cérebro tende a buscar recompensas rápidas, o que torna mais fácil reclamar das demandas diárias. Fale somente depois de iniciar a ação, usando termos vagos e abertos, evitando antecipações negativas.
5. Estabeleça limites: Esse é um mecanismo de proteção. Por exemplo, evite se envolver excessivamente em conversas negativas ou proponha uma abordagem mais construtiva para os problemas.
6. Considere as estratégias de comunicação do texto “Falar sobre os seus objetivos pode fazer sua motivação desaparecer”: Elas podem ser úteis para enfrentar as reclamações e a procrastinação que podem surgir a partir delas.
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